Segundo o psiquiatra e responsável pela Unidade de Dependência Química do Hospital Santa Mônica, doutor Claudio Duarte, os pais precisam se conscientizar sobre a importância de conversar com os seus filhos sobre consumo de álcool, a fim de estimular à prevenção ao consumo precoce do álcool por crianças e adolescentes.

Segundo Claudio Duarte, na maioria das vezes a iniciação ao álcool acontece dentro de casa, por isso produziu um vídeo para orientar pais, educadores e jovens sobre o assunto.

Além disso, salienta que a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou há exatamente um ano, em fevereiro de 2017, um documento com uma série de recomendações para o estimulo à prevenção ao consumo de álcool entre os mais jovens. O texto, intitulado Guia Prático de Orientação: Bebidas alcoólicas e prejuízos à saúde da criança e do adolescente tem como público alvo gestores, médicos, pais e educadores e traz alertas sobre os distúrbios causados pelo consumo precoce de bebidas alcoólicas.

“Este é um fenômeno mundial. As mudanças nas relações sociais, o acesso fácil às bebidas e a fragilidade das políticas públicas que se ocupam da questão constroem o cenário ideal para essas distorções que afetam a vida de milhões de pessoas. São crianças e adolescentes e seus familiares que precisam de toda a ajuda possível. Os pediatras esperam que o tema seja colocado em evidência. No debate, a sociedade poderá encontrar uma ou várias respostas”, disse a presidente da SBP, dra Luciana Rodrigues Silva.

RECOMENDAÇÕES – Entre as recomendações da SBP aos gestores, constam a adoção de medidas para proibir a efetiva venda de qualquer bebida alcoólica, para crianças e adolescentes; a criação de restrições ao marketing das bebidas alcoólica, inclusive da cerveja; a implementação com urgência das políticas de regulação da propaganda, independente das indústrias e pontos comerciais das bebidas alcoólicas; e a proibição ao patrocínio e venda em atividades e eventos culturais, esportivos e artísticos que envolvam a participação de crianças e adolescentes.

Aos médicos, o texto sugere que abordem o tema durante a consulta, introduzindo a questão do uso de quaisquer drogas e álcool na rotina de atendimento às famílias, como uma oportunidade de estimular o diálogo e a orientação sobre a prevenção dos riscos. Também se pede que expliquem aos pacientes e familiares as possíveis consequências do uso e da mistura do teor/quantidade/qualidade das bebidas alcoólicas, além de esclarecer à sociedade sobre os mitos e mensagens distorcidas de marketing, que envolvem o uso das drogas e do álcool em diferentes contextos sociais e sua relação com violência, mortes precoces e doenças.

Já para os pais e educadores é sugerido evitar o consumo de bebidas alcoólicas durante todo o período da gestação e amamentação; alertar sobre as consequências do uso precoce do álcool e de outras drogas legais e ilegais no corpo humano, especialmente durante as fases de crescimento e desenvolvimento cerebral das crianças e adolescentes; evitar a glamorização das “bebedeiras” nas festas de família e a noção de que “beber cedo é motivo de orgulho” para os pais, que é a distorção do modelo referencial sobre as culturas das famílias.

Esse grupo é ainda chamado a proibir a oferta e o consumo de bebidas alcoólicas em festas de aniversário e outras celebrações que tenham a participação de crianças e adolescentes. A publicação destaca ainda a importância de reforçar o papel dos pais e as regras de convívio familiar.

DIAGNÓSTICO DO PROBLEMA – O álcool é uma substância psicotrópica legalizada e mais utilizada por adolescentes no Brasil e no mundo. O consumo nesse grupo é preocupante, tanto por sua maior tendência à impulsividade quanto pelo prejuízo ao desenvolvimento cerebral, o que causará repercussões na vida adulta. Além disso, a ingestão tende a ocorrer em conjunto com outros fatores danosos para a saúde, como uso de tabaco e de drogas ilícitas, além de comportamentos sexuais de risco.

Os mo­tivos que elevam o uso dessas substâncias são diversos e complexos, segundo os especialistas. Alguns estão relacionados à sensação juvenil de onipotência, por desafio à estrutura familiar e social, à curiosidade e impulsividade; outros pela pressão e necessidade de aceitação pelos pares e busca de novas experiências, ou mesmo por baixa autoestima.

Os adolescentes constituem grupo de risco peculiar em dois aspectos principais: época de início do consumo e a forma como bebem. A precocidade da ingestão é um dos fatores preditores mais relevantes: quanto menor a idade de início, legalizada ou não, maiores as possibilidades de se tornar um usuário contumaz ou dependente ao longo da vida. Ressalte-se que o consumo antes dos 16 anos aumenta significativamente o risco de beber em excesso na idade adulta, em ambos os sexos.

De acordo com estudos internacionais, adolescentes escolares revelam que 39,2% experimentaram álcool pela primeira vez em casa, com familiares, muitos entre 12 a 13 anos. Quanto à forma de beber, 90% do abuso de álcool por adolescentes acontecem de maneira intensa e única, ou seja, pela ingestão de cinco ou mais doses na mesma ocasião. Foi o que mostrou pesquisa realizada nos Estados Unidos.

Quanto ao consumo de drogas, anterior à ingestão de bebidas, outro estudo evidenciou que os jovens apontaram como principal motivação a curiosidade (18,5%), diversão e prazer (15,4%), influência de amigos ou namorado/a (7,7%); ou alívio do estresse diário (6,2%). Por outro lado, 52,3% relataram nunca terem utilizado outras substâncias, além de bebida alcoólica.

Dentre os motivos indicados para a não utilização, os adolescentes apontaram que drogas não são importantes em sua vida (36,9%), o medo das consequências (16,9%), e uma menor parcela (3,1%) atribuiu à influência religiosa ou medo da família descobrir.

SITUAÇÃO NACIONAL – No Brasil, o problema é grave, conforme mostram 28 estudos populacionais realizados na população que está na faixa de 10 a 19 anos. As Pesquisas Nacionais de Saúde do Escolar (PeNSE) apontou consumo de álcool de 27,3%, na edição de 2009, e de 26,1%, em 2012, sendo que cerca de 75% dos adolescentes – de 13 a 15 anos – já haviam experimentado álcool alguma vez. Desse total, 25% haviam relatado uso regular nos 30 dias anteriores à coleta dos dados, inclusive com episódios de embriaguez; e 9% assumiram problemas com a bebida.

Já o 6º Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada, registra o fenômeno e detalha sua proporção em diferentes faixas de idade: 15,4% (de 10 a 12 anos); 43,6% (de 13 a15 anos) e 65,3% (de 16 a 18 anos). Neste estudo, realizado em 2010, nas 27 capitais brasileiras, junto a 50.890 estudantes, 60,5% declararam ter consumido álcool, sendo mais de um quinto (21,1%) no mês da pesquisa.

Em 2016, o Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA), que avaliou 74.589 adolescentes em 124 municípios brasileiros, observou prevalência elevada e início precoce do uso do álcool. Cerca de 20% tinham consumido bebidas alcoólicas pelo menos uma vez nos últimos 30 dias e, desses, aproximadamente 66% o fizeram em uma ou duas ocasiões no período.

Entre os usuários, 24,1% beberam pela primeira vez antes de 12 anos de idade. O levantamento indica ainda os tipos de bebidas mais consumidas, segundo os entrevistados: drinques com vodca, rum ou tequila e a cerveja. Outro dado que os estudos revelam é a mudança de preferência por tipo de bebida.

Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas a preferência é pela cerveja (cerca de 50,0%) seguida pelo vinho (cerca de 35,0%), exceto nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, onde predominam destilados (vodca, rum e tequila). Mesmo no Norte e Nordeste, o uso de drinques à base de destilados ficou em segundo lugar, independentemente do sexo enquanto no Sul, o vinho ficou em terceiro (cerca de 13,0%). Portanto, existe provável mudança para bebidas de alto teor alcoólico entre os adolescentes.

Na visão dos pediatras, uma explicação para essa mudança seria a busca de maior efeito com menores quantidades, principalmente pela maior concentração alcoólica dos destilados, em torno de 40,0%, e o sabor mais atraente que a mistura com refrigerantes, sucos e bebidas lácteas. O Kit da balada (vodka com energético) é amplamente consumido e divulgado como se inofensivo, e muitas vezes se usa álcool adulterado ou caseiro e os jovens de nada sabem.

PROBLEMA MUNDIAL – Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo excessivo de álcool no mundo é responsável por 2,5 milhões de perdas de vida a cada ano, percentual equivalente a 4% da mortalidade mundial. Tal fato demonstra que o álcool está sendo mais letal que a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) e a tuberculose. A OMS também estima que 76,3 milhões de pessoas possuam diagnóstico de consumo abusivo de álcool.

Na Espanha,  85% dos alunos adolescentes entrevistados já experimentaram um ou vários tipos de bebida alcoólica, conforme revelam estudos locais. No Health Behavior in School-Aged Children (HBSC) participantes com 11 a 15 anos de 41 países e regiões da Europa e América do Norte, indicaram consumo semanal entre nenhum a 59,0%, dependendo do país, sexo e faixa etária.

O uso do álcool nos últimos 30 dias, por adolescentes de países na América Latina foi variável, sendo encontrado na Argentina (25,5%), Uruguai (17,7%) e Peru (17,3%). Todos esses números e percentuais apontam a existência de um problema de saúde pública mundial. As consequências se refletem em outros indicadores.

O consumo abusivo e precoce é um dos responsáveis pelo aumento dos óbitos por causas externas (acidentes e violência) em todo o mundo, principalmente entre adolescentes. Além disso, costuma haver um efeito multiplicador, em que o consumo de uma substância eleva o risco para outras, como o tabagismo. Trata-se de um problema de escala global, com registros em todos os continentes.

PAPEL DA FAMÍLIA – A falta de diálogo sobre o tema contribui para a incidência do problema. Em muitos lares, tal substância não é vista como fator de risco, mas elemento cultural e agregador, sendo comum que adultos ofereçam vinho diluído com água as crianças.

Os dados revelam ainda que os pais brasileiros não conversam com os filhos sobre o álcool. Quase metade desses pais (48%) considerava o filho muito novo para isso, apesar de a média de idade considerada ideal para a conversa ter sido nove anos. Vinte e dois por cento disseram não saber como conversar, 15% afirmaram confiar nos filhos e 9% alegaram achar estranho ou sentir vergonha de dialogar.

Em situações onde há ausência de limites, descumprimento de regras, carência de hierarquia, de afeto e apoio, existe a fragilização dos adolescentes, que tendem a preencher essas lacunas na convivência com amigos próximos ou novas amizades. O fato de os adolescentes considerarem que 93% dos pais ficariam chateados caso chegassem alcoolizados em casa, enfatiza a família como espaço de proteção.

FATORES DE RISCO – Evidências científicas apontam que as características ou situações que podem elevar a probabilidade ou agravamento à saúde, conhecidos por fatores de risco, no caso de problemas com o álcool, destacam-se: genética, transtornos psiquiátricos, falta de monitoramento dos pais e disponibilidade do álcool. Vale ressaltar que os fatores de risco não são necessariamente iguais para todos, podendo variar conforme a personalidade, a fase do desenvolvimento e o ambiente em que os jovens estão inseridos.

Os efeitos danosos do álcool repercutem na neuroquímica de áreas cerebrais ainda em desenvolvimento, associadas a habilidades cognitivo-comportamentais, resultando em desajuste social e atraso na aquisição de habilidades próprias da adolescência, alerta a Sociedade Brasileira de Pediatria.

O Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA) dos Estados Unidos descreve algumas das graves consequências em crianças e adolescentes. Por exemplo, bebida alcoólica está mais associada à morte do que todas as substâncias psicoativas ilícitas, em conjunto. Os acidentes automobilísticos associados ao álcool são a principal causa de morte em jovens de 16 a 20 anos, mais que o dobro da prevalência entre os maiores de 21 anos.

Além disso, estar alcoolizado aumenta a chance de atividades sexuais sem proteção, de violência sexual, maior exposição às infecções sexualmente transmissíveis e a risco de gravidez. Existe também associação entre uso de álcool, maconha e comportamentos sexuais de risco: início precoce, sem preservativos e exploração sexual comercializada.

Outro problema decorrente é que a dependência de álcool leva a déficit de memória e queda no rendimento escolar, o que pode diminuir a autoestima do jovem e levar ao envolvimento em cadeia com outras substâncias psicoativas, ao invés de motivá-lo a diminuir ou interromper o uso. O uso precoce de bebidas alcoólicas também pode ter consequências duradouras: aqueles que começam antes dos 15 anos têm predisposição quatro vezes maior de desenvolver dependência em comparação aos que fizeram o primeiro uso com 20 anos ou mais.

Assista o vídeo com dicas preparadas pelo psiquiatra Claudio Duarte!

Fonte: Associação Brasileira de Pediatria

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