Um geriatra é um médico generalista e especialista a um só tempo.

O que isto quer dizer? Médico generalista é aquele que sabe de tudo um pouco. Médico especialista é aquele que domina uma determinada área do conhecimento médico e se torna referência nesta área até mesmo para os outros médicos.

Como generalista, o geriatra é capaz de prevenir, avaliar e tratar doenças dos mais diferentes aparelhos do nosso corpo; além disto, como conhece razoavelmente bem cada área da medicina, sabe onde seu conhecimento termina e onde deve contar com o auxílio de um especialista e encaminhar o paciente de forma correta. Para isto, ele estuda muita Clínica Médica, Cardiologia, Psiquiatria, Neurologia, Pneumologia, Nefrologia, etc. Mas o geriatra é também um especialista: é a única especialidade da medicina que se dedica a estudar o idoso e o processo de envelhecimento. Nesta área, o geriatra é referência para os outros especialistas.

O geriatra se preocupa, portanto, com todos os aspectos da saúde do idoso, mas vê sempre todas elas de acordo com as particularidades da saúde diante do processo de envelhecimento. Enquanto a grande maioria das especialidades médicas se dedica a um órgão ou sistema, a geriatria é das poucas especialidades que se dedicam ao indivíduo como um todo e a única que estuda o processo de envelhecimento.

Ter um geriatra é ter o seu médico e não um médico para cada órgão ou doença. Aquele que lhe conhece e pode lhe atender, apoiar e orientar a qualquer hora em qualquer dia, no consultório, na sua casa e até dentro do hospital se for necessário. O geriatra também resgata a figura – tão saudosa e necessária nos dias de hoje em que o anonimato é a regra – do médico da família. Aquele a quem sabemos que podemos recorrer, seja quando só precisamos sanar uma dúvida, seja quando precisamos pedir socorro.

 

E faz diferença pensar no envelhecimento?

Diversas modificações acontecem durante o nosso envelhecimento, e estas alterações são de início precoce. Como veremos, embora sempre haja o que se fazer para melhorar a qualidade de vida de um idoso, existem idosos que envelheceram bem e idosos que envelheceram mal. E escolher que tipo de idoso queremos ser é privilégio de quem é jovem e está disposto a planejar o seu envelhecimento.

 

Afinal, quem é idoso?

Podemos responder a pergunta de duas maneiras:
Conceito cronológico
É idoso quem tem pelo menos uma certa idade. Originalmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) definia que esta idade mínima era de 65 anos para países desenvolvidos e 60 anos para países em desenvolvimento, tanto porque países em desenvolvimento têm expectativas de vida menores quanto refletindo um pior estado de saúde dos idosos nestes países. No entanto, o reconhecimento de que o envelhecimento é um fenômeno mundial, as melhores condições de saúde em geral dos idosos nos países em desenvolvimento e as dificuldades em comparar populações idosas em países com diferentes definições do que é um idoso têm levado cada vez mais ao uso da idade mínima de 65 anos para se definir um idoso. No entanto, como veremos, definir quem é idoso simplesmente por causa da idade pode ser útil, mas é simplificar demais um processo que é lento, de início muito precoce e contínuo.

 

Conceito biológico

O envelhecimento é, segundo Confort, um grande estudioso do assunto, um “conjunto de fenômenos que leva à redução da capacidade de adaptação a sobrecargas funcionais”. Para entender do que Confort está falando, precisamos decompor seu raciocínio.

Por funcionalidade entendemos literalmente o funcionamento do nosso organismo, ou melhor, a capacidade de função de cada órgão ou sistema que compõem o nosso corpo. Assim, se pensamos na função de bomba do coração, a capacidade funcional cardíaca está ligada à sua capacidade de manutenção da sua função de bomba, função vital para nossa sobrevivência.

Acontece que o coração humano, em seu auge na idade adulta, é capaz de bombear muito mais sangue do que necessário para a manutenção do corpo em um desempenho basal, como o repouso ou atividade leve. Todos nós percebemos isto quando fazemos um exercício mais pesado: o coração acelera, bombeando muito mais sangue e oxigênio para suprir este aumento nas necessidades energéticas durante o esforço.

Este exercício mais pesado nada mais é do que uma sobrecarga funcional que nós impomos ao coração. Isto é o mesmo que dizer que o coração possui uma capacidade funcional superior ao necessário para o funcionamento básico (que nós médicos chamamos de funcionamento basal) do organismo.

Então, se o o coração possui uma capacidade maior do que o necessário para o funcionamento basal do organismo, podemos dizer que o coração humano possui reserva funcional; é justamente esta reserva que permite que o coração receba uma sobrecarga funcional (o exercício) e desempenhe bem diante dela. Isto acontece com todos os órgãos ou sistemas do nosso corpo: nós temos reserva funcional cardíaca, pulmonar, visual, cerebral, muscular, etc.

O nosso corpo possui reserva funcional, o que significa que nós somos capazes de desempenhar muito mais do que o necessário no dia-a-dia. É exatamente em situações de sobrecarga funcional que esta reserva funcional é “chamada” a comparecer, permitindo que nosso corpo mantenha-se bem em momentos excepcionais. O organismo humano em seu apogeu tem muita reserva funcional, o que permite que ele se adapte bem em situações de reserva funcional.

Acontece que durante o envelhecimento, diversos fenômenos biológicos entram em ação constante, lentamente diminuindo nossa reserva funcional. De fato, tais fenômenos são tão lentos, que alguns começam durante a infância! Nós continuamos muito bem no dia-a-dia, pois usamos muito menos do que nossa capacidade funcional – e isto continua a ser verdade mesmo em idades muito avançadas. Mas é nestas idades que uma sobrecarga funcional, como uma doença, um remédio a mais para ser destruído pelo fígado ou eliminado pelos rins ou uma queda ao chão pode produzir efeitos que nós nunca observaríamos em um jovem.

O processo de envelhecimento torna os idosos muito mais vulneráveis às doenças do que o são os indivíduos mais jovens. Isto porque, em indivíduos idosos, existe a “redução da capacidade de adaptação a sobrecargas funcionais” mencionada por Confort. Os médicos geriatras sempre se preocupam com essa perda de reserva funcional quando prescrevem remédios, pedem exames e acompanham pacientes idosos.

Considerando o auge da capacidade funcional humana por volta dos 30 anos, a tabela mostra o ritmo de perda destas funções em porcentagem se considerarmos cada uma em 100% de funcionalidade aos 30 anos. É importante ressaltar que, embora as perdas sejam grandes, como vemos na tabela, a reserva funcional humana é tão grande que podemos estar muito bem mesmo em idades muito avançadas.

A necessidade basal renal, por exemplo, é da ordem de 30% daquilo que nós temos aos 30 anos, e só abaixo disto é que temos uma doença grave dos rins. Como vemos, mesmo aos 80 anos, o envelhecimento preserva muito mais função do que nós precisamos. Mas aqui temos somente metade da explicação do envelhecimento, porque esta explicação nos diz o que é o envelhecimento normal, ou senescência, mas o envelhecimento habitual, aquele que nós observamos nas pessoas, é sempre uma soma da senescência com a senilidade (o envelhecimento anormal ou patológico).

 

Senescência versus Senilidade

Dois tipos de fenômenos nos acompanham na jornada entre a juventude e a idade avançada: a senescência, ou envelhecimento normal, que acabamos de conceituar, e a senilidade, ou envelhecimento anormal ou patológico. Enquanto o envelhecimento normal é inevitável, não pode ser curado nem se rejuvenesce dele, afinal é um processo natural do ser humano, a senilidade ou envelhecimento patológico é em grande parte evitável, até certo ponto pode ter cura e sempre existe o que fazer para ao menos diminuir o seu efeito. Isto porque a senilidade não é parte natural do nosso envelhecimento! A senilidade, na verdade, é a perda de capacidade funcional de um ou mais órgãos ou funções causada por maus hábitos de vida como o sedentarismo (falta de exercício), o excesso de bebidas alcoólicas e o hábito de fumar, a má alimentação e a obesidade, bem como a falta de prevenção e controle das doenças crônicas, como o diabetes, a hipertensão e colesterol alto, entre tantos outros.

O envelhecimento que observamos nas pessoas é, portanto, a perda de reserva funcional determinada pela soma da senescência (natural e inevitável) com a senilidade (evitável e variável de uma pessoa para outra). Se a senescência é normal e permite vivermos com qualidade até idades extremamente avançadas (por que não dizer: além dos 100 anos?), é a senilidade ou envelhecimento anormal que nos tira gravemente a reserva funcional e prejudica a nossa qualidade de vida à medida em que envelhecemos.

 

Envelhecimento e ciclo de vida segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)

É por isto que dizer que “idoso é tudo igual” não poderia estar mais errado: nós envelhecemos de forma diferente uns dos outros, porque vivemos vidas diferentes, nos cuidamos de forma diferente e lidamos de forma diferente com os problemas que temos ao longo da vida. No entanto, todos deveríamos nos prevenir, porque a vida vale muito mais a pena se vivida com mais qualidade! Mas vale lembrar: quanto antes nós nos prevenimos, mais problemas nós evitamos!

 

Então, quando procurar um geriatra?

Acredito que existem dois grandes motivos para se procurar um médico geriatra.
O primeiro é ser idoso e desejar ter um médico responsável pela sua saúde como um todo, capaz de lidar com a maioria das condições de saúde e de doença, seja do coração, anemia, depressão, diabetes ou pressão alta, problemas de colesterol alto, osteoporose ou fumo – ou todas elas juntas. Se você é um idoso e gostaria de ter um seguimento completo, vale a pena procurar o geriatra.

O segundo motivo é querer envelhecer com saúde e fazer uma avaliação ampla, com consulta e os exames especificamente para o seu caso, levando-se em conta ocupação, atividades diárias e de lazer, para a elaboração de um aconselhamento amplo de saúde, específico para cada idade.

Afinal de contas, envelhece bem quem se cuida, de forma ativa e preventiva.

E para isto nunca se é nem novo demais nem velho demais.

Fonte: Envelhecimento Saudável

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