Resolvemos colocar o dedo na ferida e falar de um tema que certamente não faz parte dos seus assuntos preferidos: a depressão. Cercada de preconceitos e mitos, a depressão não é preguiça, nem tristeza e muito menos frescura. É uma doença séria, que atinge cerca de 350 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Uma síndrome incapacitante que atualmente é uma das principais causas de afastamento do trabalho, além de poder levar à morte. Estima-se que 850 mil pessoas morrem por ano em decorrência do transtorno. Os dados são da Organização Mundial de Saúde (OMS). Cláudio Elias Duarte (CRM 90215) é Psiquiatria e Psicoterapeuta do Hospital Santa Mônica, referência em psiquiatria hospitalar no país e credenciado da POSTAL SAÚDE no estado de São Paulo. Ele afirma que, no Brasil, cerca de 35 milhões de pessoas sofrem de depressão.

 

O que é a depressão?

 

O Dr. Cláudio destaca que, apesar daquelas pessoas que pensam que depressão é apenas frescura, existem aquelas que acham que qualquer tristeza (que ele classifica como sentimento muito humano, saudável e até necessário a um desenvolvimento emocional adequado) já pode ser chamada de depressão. “E entre estas duas posturas extremistas está o conceito mais adequado do que representa uma das condições de agravo à saúde mais comuns e impactantes da atualidade, tanto para o indivíduo quanto para sociedade como um todo”, avalia o médico. “Assim, podemos definir depressão ou transtorno depressivo como um conjunto de sintomas que perduram por um determinado tempo, causando prejuízos e limitações à vida de uma pessoa, ultrapassando sua capacidade de superação e adaptação”, define.

Perguntado sobre as diferenças entre o sentimento de tristeza e a depressão, o psiquiatra afirma que um dos principais termômetros para que um profissional da área avalie se está diante da manifestação de um sentimento de tristeza esperado, compreensível no contexto de vida da pessoa e que, naquele momento, não configura um transtorno depressivo maior, é o quanto o indivíduo, mesmo que triste, segue ajustado àquele determinado contexto de vida, reagindo a contento. “Geralmente não estamos diante de uma depressão quando somos capazes de reagir à tristeza sem amargar sequelas que se arrastam por muito tempo e que se multiplicam contaminando outros aspectos da nossa vida e dos afazeres do dia a dia.”. “De forma alguma sentir tristeza é estar deprimido, mas há depressões em que o sintoma de tristeza nem sequer é a queixa principal ou espontaneamente relatada”, diz.

 

Preconceito e demora para buscar ajuda

 

Cláudio faz um alerta: nem sempre a pessoa doente tem crítica de que está deprimida. Boa parte dos pacientes demora em buscar e receber ajuda efetiva e outros só buscam tratamento após insistência de familiares e amigos, às vezes somente involuntariamente ou após uma grave crise (por exemplo, uma tentativa de suicídio). “O tema ainda é rodeado de preconceitos e desinformação e, mesmo que a população esteja mais familiarizada com o assunto, a demora em se promover tratamento pode ser ocasionada por limitação da disponibilidade de profissionais ou de centros capacitados em atender de forma adequada tal demanda”, explica.

 

Qualquer pessoa pode ter

 

Assim como outras doenças, a depressão pode atingir qualquer pessoa, em qualquer idade. Porém, um estudo transnacional publicado pela OMS em 2011 concluiu que a chance de ter depressão é até duas vezes maior para o sexo feminino, em especial nos países de baixa renda. “Postula-se que diferenças hormonais e a possibilidade de quadros depressivos perinatais e à época da menopausa, somados às questões sociais e psicológicas, expliquem essa maior tendência nas mulheres em deprimir”, avalia o médico.

 

Crianças e jovens

 

Embora possa atingir crianças raramente, a depressão é mais tipicamente uma doença do adulto jovem, com maior incidência até ao redor de 30 anos. “Com o envelhecimento populacional, contudo, o diagnóstico de depressão na terceira idade vem se tornando também mais expressivo, sendo porém mais difícil de distinguir a doença dos quadros orgânicos ou demenciais próprios do envelhecimento”, destaca.

 

Fatores genéticos estão entre as causas, mas isso não é tudo

 

Perguntado sobre as causas da doença, o médico explica que não se chegou a uma conclusão ou causa definitiva: “Por mais que o conhecimento científico tenha avançado no entendimento dos mecanismos e alterações relacionados aos transtornos mentais em geral, apontando causas biológicas, psicológicas e sociais da depressão, dentre outras, não se pode afirmar que há uma causa única e abrangente, que explique todos os casos. Quase sempre podemos falar de um conjunto de fatores, biológicos e ambientais”, diz. Por exemplo, sabemos que há um peso genético na questão, onde a existência de muitos casos em familiares consanguíneos aumenta a chance de alguém manifestar depressão na vida, independentemente de haver convívio direto. Também é reconhecido que um ambiente ou eventos de vida desfavoráveis podem desencadear sintomas, como um luto mais complicado ou histórico de abusos físicos ou psicológicos na infância. Já são também mais compreendidos os aspectos da neuroquímica cerebral envolvidos, em especial as alterações de duas substâncias presentes no cérebro (noradrenalina e serotonina). Vale citar também que a depressão pode ser secundariamente decorrente de uso de outros remédios ou mesmo drogas recreativas, como álcool e cocaína. E ainda pode haver casos depressivos associados a outras doenças físicas, por exemplo: câncer, hipotireoidismo ou após AVC (Acidente Vascular Cerebral).

 

O Dr. Cláudio tirou várias dúvidas sobre a depressão. Confira:

 

A depressão pós-parto tem as mesmas causas?

 

O período da gestação e do puerpério, mesmo quando tudo vai muito bem, é marcado por expressivas alterações para as mulheres, desde seu corpo, seus hormônios, seu papel social e familiar, bem como seu psiquismo. Assim, não é exagerado dizer que esta fase sempre representa, no mínimo, um enorme desafio, permeado de alegrias, claro, mas muitas vezes também acarretando estresses, ansiedade e angustias. Quando, por alguma razão (biologicamente determinada e/ou devido a circunstâncias adversas), tais dificuldades superam as capacidades de adaptação e de resiliência, podem ocorrer quadros depressivos que variam de leves até muito graves, com sintomas psicóticos muitas vezes e enormes riscos e prejuízos, à mãe e ao bebê. As chances de uma mulher ficar deprimida nesta fase são até maiores que em outras épocas da vida e, portanto, os profissionais de saúde que lidam com a gravidez, com o puerpério e com o recém-nascido devem estar atentos, em especial nos casos em que a mulher já tenha antecedentes de depressão. Embora haja restrições a determinados medicamentos nesta fase, sempre há opções seguras de tratamento que protegeram mãe, criança e família deste terrível mal.

 

Quais os principais tratamentos do transtorno depressivo?

 

Em primeiro lugar é preciso dizer que embora alguns casos possam ter remissão espontânea ou pelo menos sem um tratamento específico, o mais comum, mesmo hoje em dia, é que boa parte dos que sofrem de depressão não busquem ajuda ou não encontrem tratamento disponível. E, mesmo os que buscam e têm onde obter tal ajuda, podem não encontrar profissionais devidamente preparados para lidar com certos casos. Daí a importância de, preferencialmente, buscar especialistas da área (um médico psiquiatra é o mais indicado para começar). Mas, como a demanda é grande, em termos de Políticas de Saúde Pública, é necessário preparar melhor os profissionais da Atenção Básica (generalistas) e mesmo de outras especialidades a reconhecer, encaminhar ou mesmo lidar ao menos com os casos mais simples. Basicamente o tratamento pode consistir das seguintes abordagens, sendo que a associação de algumas delas geralmente aumenta as chances de recuperação:

 

  • Medicamentos psicotrópicos antidepressivos: estão cada vez mais desenvolvidos, com menos efeitos colaterais, mais seguros e cada vez mais se sabe como utilizá-los e/ou associá-los nos casos mais difíceis, aumentando a eficácia. Medicação ainda é uma das abordagens mais essenciais na recuperação, havendo inclusive opções fitoterápicas.

 

  • Psicoterapias e outras abordagens não biológicas: aliados fundamentais no tratamento, as técnicas de psicoterapia cognitivo-comportamentais são tidas como mais eficazes, mas em geral várias outras são excelentes adjuvantes do tratamento, havendo modelos ou teorias para todos os gostos (psicanálise, psicodinâmica, individual, familiar ou grupo, psicodrama, terapia ocupacional, arte-terapia, psicoterapia breve, etc.).

 

  • Melhora do estilo ou qualidade de vida: é altamente recomendável que o deprimido melhore sua alimentação, reduza seu estresse, pratique atividades físicas adequadas, busque conforto espiritual/religioso ou meditações, dedique-se a um hobby, conviva mais e harmonicamente com amigos e familiares, etc. Mas vale lembrar que nem sempre isto resolve sem o uso de outras abordagens propriamente terapêuticas e a depressão frequentemente traz em si a dificuldade em por estes bons conselhos em prática.

 

  • Outras abordagens biológicas não medicamentosas: em determinados casos, por necessidade ou preferência, o uso de medicamentos pode ser substituído ou associado a técnicas terapêuticas que agem no Sistema Nervoso através de outros mecanismos. Podemos destacar a Eletroconvulsoterapia (técnica mais antiga, rodeada de preconceitos, mas muito útil clinicamente em alguns casos) e as diversas técnicas de Neuromodulação Terapêutica (menos invasivas e mais modernas, como a EMTr – Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva e a ETCC – Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua).

 

É comum que algumas pessoas tenham que tomar remédio por longos anos? Em geral, os primeiros episódios depressivos, em especial quando tratados precocemente e quando não há complicações ou severidade, são tratáveis ao longo de alguns meses a um ano. Mas há casos em que isto pode levar mais tempo de tratamento ou até mesmo casos em que a retirada do tratamento leva recorrentemente a recaídas ou reincidências, sendo então indicado uso das terapêuticas (medicamentos inclusive) por longos períodos ou até de forma contínua, caso isto signifique uma melhor qualidade de vida sem efeitos indesejáveis, claro. O importante é salientar que estar em tratamento, mesmo quando não se alcança uma melhora completa ou permanente é, via de regra, melhor que sofrer com as consequências e riscos de uma evolução desfavorável do quadro psíquico. Um especialista saberá certamente como melhor conduzir os casos mais complicados, graves ou refratários.

 

Que casos necessitam de internação?

 

É preciso salientar que a grande maioria dos casos, em psiquiatria em geral e as depressões inclusive, são tratáveis em nível ambulatorial. Mas o recurso mais intensivo de uma internação não só é interessante em algumas circunstâncias como imprescindível em algumas outras. Podemos destacar como situações onde internação pode ser o atalho para uma recuperação mais rápida, segura e efetiva:

 

  • quando há risco de auto ou hetero agressividade ou mesmo suicídio. Ou ainda quando também ocorrem sintomas que possam afetar a capacidade crítica ou juízo de realidade (delírios), alterações de sensopercepção (alucinações, por exemplo). Nestes casos a internação pode, e às vezes até deve, ser realizada de forma involuntária, desde que com anuência de familiar ou responsável;

 

  • quando há complicações clínicas de outra natureza que requeiram ambiente hospitalar (idosos com outros problemas de saúde e alcoolistas com abstinência aguda, por exemplo);

 

  • casos onde as tentativas de tratamento em níveis mais leves e menos restritivos falharam e que a ação intensiva de equipe multidisciplinar pode aperfeiçoar resultados ou melhorar a acurácia do diagnóstico;

 

  • Uma fratura que pode deixar sequelas.

 

Que dicas podem ser dadas a uma pessoa que tenha os sintomas, mas ainda não consegue admitir que sofra de uma depressão de fato?

 

Basicamente que reflitam sobre o seguinte: somos todos mortais, imperfeitos e passíveis de adoecer, isto é, qualquer ser vivo certamente em algum momento do seu percurso neste mundo, sofrerá de, digamos, um mau funcionamento de algum aspecto de sua saúde física ou mental. Existem sem dúvida mecanismos evolutivos que nos dotaram de alguma capacidade de auto regeneração (há fraturas ósseas, por exemplo, que consolidam bastando o tempo e o repouso, mas há aquelas fraturas em que, se a medicina não tivesse desenvolvido técnicas cirúrgicas e medicamentos específicos, deixariam maiores sequelas e até poderiam causar a morte).

Então, a depressão pode ser como uma “fratura” do sistema psíquico, podendo sarar sem que façamos nada muito especial, ou podem também nos deixar meio “mancos” da emoção e dos comportamentos ou podem ainda ceifar nossas vidas literalmente (indivíduos depressivos não tratados têm inclusive maior morbidade e mortalidade por outras doenças clínicas, mesmo que não venha a falecer por suicídio).

Só que há um complicador: quando quebramos um osso, nosso cérebro é capaz de perceber o que ocorreu e mais facilmente nos conduzir ao raciocínio quase que óbvio de que devemos buscar ajuda de especialistas, capazes de indicar se é melhor ir para um procedimento mais completo como uma cirurgia, ou se basta uma técnica correta como imobilização óssea, remédios e repouso ou fisioterapia.

Mas, e se o que “quebrou” foi justamente o órgão responsável por perceber, decidir e reagir ao dano ou defeito, isto é, se nossa mente é que “fraturou”? Neste caso, não seria mais sábio ou mesmo imprescindível buscar ajuda profissional confiável e competente para diferenciar uma “contusão” leve (uma tristeza simples) de uma grave “fratura exposta” do cérebro (uma depressão enquanto doença)?

Somos todos mortais, imperfeitos e passíveis de adoecer, isto é, qualquer ser vivo certamente em algum momento do seu percurso neste mundo, sofrerá de, digamos, um mau funcionamento de algum aspecto de sua saúde física ou mental.

Como você orienta as famílias dos pacientes a lidarem com a situação?

 

Que eles representam quase sempre um mix de papéis aparentemente paradoxais na engrenagem de um caso de depressão:

 

  • podem ser parte da causa ou do agravamento, mas são certamente parte da solução e do apoio fundamental para a melhora;

 

  • que é comum que sintam pena, raiva e medo ao mesmo tempo em que podem ser o pilar da esperança, da força e do amor necessários naquele momento;

 

  • que podem “adoecer” junto ao paciente depressivo, mas que estão diante da oportunidade de transformar a vida de todos para melhor com o aprendizado da superação;

 

  • que não devem desistir nunca, mas tampouco podem persistir em comportamentos disfuncionais que perpetuem o problema ou impeçam que a “dor” depressiva leve ao amadurecimento e crescimento. Enfim, que os familiares tenham coragem e determinação, sem pressão ou julgamentos excessivos; que tenham compreensão e solidariedade, sem serem lenientes nem invasivos; que apoiem e nunca desistam, mas que se cuidem também, porque um bom exemplo vale mais que mil palavras.

 

Existem formas de prevenção? Quais?

 

Os casos crônicos (menos prevalentes em geral) são mais frequentes justamente entre aqueles deprimidos que demoram a buscar ajuda, quando já se passou muito tempo e as consequências de estar depressivo retroalimentam as causas da depressão, perpetuando um ciclo vicioso. Então, a melhor medida preventiva é a detecção e o tratamento precoce destes casos. Para os que nunca tiveram depressão, apenas dois conselhos em geral são úteis e embora quase que óbvios: cuide de sua qualidade de vida (tenha lazer saudável, cultive amigos, faça esportes, se alimente adequadamente, reflita sobre os valores que de fato importam para você, busque paz espiritual dentro de sua crença…) e se afaste de fatores de risco (evite o abuso de álcool e drogas, o isolamento social, o trabalho excessivo, os sentimentos que machucam como raiva, onipotência, rancor, ganância, egoísmo).

 

É comum que a doença reincida? Como evitar?

 

Há estudos apontando que cerca de 50% dos pacientes que tiveram um primeiro episódio depressivo irão ter o mesmo quadro de novo alguma dia na vida e que a taxa de reincidência para quem já teve dois ou mais episódios pode ser da ordem de 70%. Há ainda o risco de que o sujeito não sofra apenas da depressão conhecida como unipolar, podendo vir a ter outras fases em que manifeste um quadro bem oposto à depressão, chamado de “mania” (estado eufórico e acelerado do psiquismo) igualmente danoso, incorrendo no diagnóstico do chamado Transtorno Afetivo Bipolar, o que requer cuidados adicionais.

 

Hospital Santa Mônica

 

Além de contar com uma estrutura hospitalar completa, equipamentos adequados para os tratamentos e medicamentos de última geração, o Hospital Santa Mônica tem como foco a qualidade de vida e bem-estar dos pacientes e seus familiares. Carinho, atenção e amor fazem parte dos tratamentos humanizados que a equipe especializada do HSM oferece e isso tem proporcionado resultados muito positivos. No nosso site é possível encontrar mais informações sobre a filosofia de trabalho e a forma como atuamos. Perguntado sobre as técnicas utilizadas pela instituição, o médico afirma que cada caso é avaliado individualmente, pois não existem fórmulas milagrosas e também não seria ético fazer promessas ou criar expectativas irreais. “O que podemos garantir é que temos um excelente know-how e uma história que foi construída com muito profissionalismo, baseada na filosofia da humanização e sustentada pelas boas práticas de saúde que realizamos, pensando sempre na reintegração dos pacientes ao melhor convívio social”, diz.

 

Avanços da ciência e da medicina para o tratamento da depressão

 

“Há grandes inovações na linha das abordagens não medicamentosas (Neuromodulação), nas quais é até possível prescindir de fármacos ou melhorar respostas ao tratamento com remédios, além de contribuir para melhor compreensão dos mecanismos por trás do quadro depressivo e do funcionamento cerebral”, afirma o médico.

Há novos fármacos interessantes ou novas aplicações para medicamentos já conhecidos, ou ainda o aprimoramento do manejo da prescrição destes remédios. Algo útil que poderemos ter num futuro, mas ainda não estabelecido como possível na prática clínica do dia-a-dia atual, é a possibilidade de predizer, com exames laboratoriais, genéticos ou de imagem, qual perfil de paciente responde melhor a que fármaco ou outra abordagem de tratamento biológica ou psicossocial.

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